Em um dia ensolarado, bem distante daqui havia um reino, um reino de flores de papel. Nele as pessoas eram felizes, emotivas e cheias de vida. O sofrimento, a tristeza e a desilusão não tinham espaço ou vez, cada criatura acordava agradecendo a Deus, ou aos deuses, as maravilhas que testemunhavam. Cada criatura era única, cheia de magia, cativante e sempre pronta a servir o bem comum. Não existiam mágoas, tudo se resolvia com uma boa conversa e trabalho conjunto.
Infelizmente a alegria não é permanente e a falha, o fracasso e a destruição espreitam a todo momento, prontas a fragmentar a realidade. E tudo começou com um homem torto, mesquinho, nascido com uma estrela ruim e predisposto ao azar.
Logo ele iniciou seu caminho cheio de perfídia, remorso e corrupção, influenciando a todos. Bastou apenas um elemento para que o reino das flores de papel se perdesse, as grandes torres se queimassem, e o céu ficasse eternamente morto e nublado. Não havia mais alegria ou encanto, tudo que existia era sofrimento, dor e desilusão.
quarta-feira, 16 de abril de 2008
Flores de Papel
segunda-feira, 14 de abril de 2008
Valsa
- Tipo?
- Qualquer coisa.
- Como assim qualquer coisa?
- Ai, caramba, como você é. Pensa em algo logo, pô!
- Qualquer coisa?
- Sim!
- Pronto. E?
- Agora imagina esse algo, só que azul.
- Não dá.
- Como assim não dá?
- O algo que imaginei é verde.
- Então imagina ele azul, oras!
- Mas se eu mudar de cor, não vai ser mais o algo que pensei.
- Ai, mala. Ta bom! Vamos tentar outra coisa.
- Certo.
- Pensa num número qualquer.
- Ta, pensei. E?
- Multiplica por 5.
- Ok.
- Soma 8.
- Hum...
- Multiplica por 4.
- E?
- Soma 30.
- Fiz.
- Multiplica por 5.
- Pronto
-Agora diz o resultado.
- 624,159265.
- Gaaahhhhhhhh. Cacete que número você pensou?
- Em pi, eu. Você disse qualquer número. Aí pensei em 3,14159265.
- Afee, eu te odeio, sabia?
- Acho que sim.
- Vamos tentar outra.
- Ta bom.
- Uma pessoa tem que transportar 1 galinha, 1 raposa e um saco de milho de uma margem à outra do rio. Apenas ela e um dos "acompanhantes" podem atravessar com o barco em cada viagem. A galinha não pode ser deixada sozinha com o milho (pois o come) nem com a raposa (pois é comida). Como a pessoa realiza a travessia sem perder nenhum de seus bens?
- Essa é fácil.
- Então me diz a resposta.
- Primeiro eu levo a galinha pro outro lado. E volto.
- Certo.
- Ai eu volto e pego o milho, chegando do outro lado eu deixo o milho, pego a galinha e enterro ela, deixando só o pescoço de fora.
- Arg. Você não pode enterrar a galinha.
- Quem disse? Não tava nas regras.
- Assim não dá. Ou você leva a sério ou paramos. Vamos tentar pela última vez.
- Ta bom, mas vê se faz a pergunta direito, oras bolas.
- Escolhe uma carta.
- Hum...Essa.
- Retira do baralho.
- Pronto.
- Agora embaralha ela de volta, e me devolve o baralho com ela.
- Ta...pronto.
- A carta que você escolheu, foi...hum... essa!
- Não sei.
- Como não sabe?
- Você me mandou escolher uma, não memoriza-la. Ei ei,, solta essa cadeira e...
CRECK !!!
Silêncio.
domingo, 6 de abril de 2008
Uma Noite
Estavam encharcados, com frio, mas ainda assim satisfeitos, a noite havia transcorrido da melhor maneira possível e o fim prometia ser agradável. Pareciam ignorar os carros, os pedestres; qualquer um ou qualquer coisa que se colocasse no caminho dos dois era contornado.
Tomados apenas pela fascinação que sentiam, procuravam apenas os lábios um do outro, que mesmo gelados pela chuva, se aqueciam com o contato. As mãos tocavam cada parte de pele por baixo da roupa que podia ser alcançada, a satisfação era uma constante.
Ele a envolvia pela cintura com firmeza, como se na intenção de garantir que realmente a situação ocorria. Ela retribuía com o olhar fixo e calmo, aquele não era o momento de dúvidas.
Somente sombras na escuridão, que se contempladas se misturavam à noite, ao cair da chuva e ao silêncio ao seu redor.
terça-feira, 1 de abril de 2008
Irineu
O doce sabor do álcool tornava mais suportável a situação de Irineu. Eram momentos em que o embotamento, a leve dormência da alma e dos sentidos ofereciam algum descanso para uma alma partida e puída. A cabeça tornava-se mais leve, os problemas imediatos desapareciam e, no frio do paladar que tomava conta de sua boca, encontrava uma sensação agradável.
Os copos se empilhavam junto a inúmeras garrafas pela casa, eventualmente eram limpos pela necessidade de uma vez mais receberem o líquido vermelho que Irineu tanto apreciava. As garrafas de vinho eram inúmeras; presentes de amigos, conhecidos ou aquisições que ele mesmo fazia com seu trabalho.
Cada copo cheio era admirado contra a luz, examinado pela sua aparência, cor, cheiro e sensações que despertavam em sua boca, antes e após cada gole. Este ritual tomava horas de seu dia, em que era acompanhado pelo tabaco, outro grande prazer de Irineu. Mas tudo pouco importava, a realidade se avizinhava a cada dia que aparecia no horizonte, cheio de sombras, tristeza e mágoa.
O prazer despertado pelo álcool era inversamente proporcional à felicidade do dia seguinte. Seu corpo já não mais aceitava essa agressão em nome do prazer, seu fígado se ressentia pelos maus-tratos de anos, bem como sintomas de gota já surgiam. Seu mau humor era amplamente conhecido por todos os indivíduos que tinham o desprazer de compartilhar minutos junto a ele, alvos que eram de suas perfídias e maquinações.
Nada restava além do álcool e da fumaça que o envolviam quando se isolava. Seu apartamento era um deserto de vida, nunca havia pessoas, plantas ou qualquer tipo de animal, a não ser que morto e pronto para ser cozido. A vida se azedava continuamente e ele não sabia o que fazer.
Não sabia exatamente como tudo havia começado, só percebia que tinha relação com perdas irreparáveis, por sofrimentos que ele mesmo tinha se impingido, ignorando qualquer outra forma de lidar com as incertezas da vida. Tinha se fechado, como um cômodo que coberto por lençóis e sem ver a luz do dia por anos a fio, se visse mofado, sem vida.
Nada mais restava além do álcool, do silencioso envenenamento a que se submetia todos os dias, ciente e esperançoso de que o fim estava próximo.
terça-feira, 25 de março de 2008
Caminhar
Andava sem saber bem o porquê, apenas sabia que algo o sufocava e que ele não tinha uma explicação razoável ou maneira de se desvencilhar de tudo isso. Cada passo não era planejado, não levava a destino nenhum específico e apenas era conseqüência da necessidade de se manter
Ele acreditava que andar tornaria mais difícil pensar, mas logo viu que as duas coisas não se dissociavam, o cansaço relativo ao desgaste só o entreteria
Como a cabeça não desanuviava, como os sentidos não se embotavam, foi obrigado a pensar em novas estratégias. A primeira que veio a sua cabeça foi utilizar a corrente que sempre levava consigo, enrolando cada ponta em uma das mãos e em seguida puxando. A dor resultante era razoável e de certa forma ajudava a passar o tempo, sofrer fisicamente é mais imediato e distrai bem mais do que só no campo das idéias, porém, não era o bastante.
As chaves que pendiam da corrente também ganharam participação na cena, sem parar por um minuto que fosse ele as apertava contra o antebraço, querendo acompanhar se alguma conseguia romper a pele e, quem sabe, até mesmo sangrar um pouco que fosse. Podia parecer patético, mas na rua, sem objetos cortantes o suficiente e sem querer chamar atenção desnecessária, era o algo possível. Para seu desalento, conseguiu apenas manchas roxas e alguma pele mais esfolada do que qualquer outra coisa.
O cenário mudava mas os sentimentos ainda estavam lá, confusos, perdidos e até mesmo desesperadores. O próximo alvo eram os postes, apenas os metálicos que ele encontrava pelo caminho e que golpeava sucessivamente com cada uma de suas mãos. Era um ato de concentração, golpear errado e quebrar um dedo era uma idiotice a qual ele não podia se permitir. Sua mão direita acertava com gosto, sempre pronta a fazer barulho e balançar o que se apresentava a sua frente. A mão esquerda era uma lástima, passava longe dos postes ou simplesmente doía a cada golpe aplicado, provocando pouco movimento e quase nenhum som.
Mãos esfoladas e cortadas, antebraço ferido, o andar incessante, tudo isso proporcionava um pouco de endorfina, um pouco de prazer agora bem vindo. Nem assim ele parou; perdeu a conta de quantos carros ameaçaram atropelá-lo e ele de forma distraída só percebeu no último momento; não sabia aonde ia ou o que faria, apenas andava sem direção.
sábado, 8 de março de 2008
Risos
Risos por toda parte, dos seus amigos, familiares, pessoas que passavam pela rua e que sem o conhecer sabiam que se tratava de uma figura patética. Ele não agüentava mais o escárnio perpétuo, o sarro que o mundo tirava dele dia após dia, sentia-se humilhado e fraco. Tampava seus ouvidos e fechava os olhos na esperança de que os risos cessassem e esquecessem de sua existência infeliz, mas não era o que acontecia.
A cada dia os risos se tornavam cada vez mais altos e assustadores, sua cabeça latejava e sentia um nó no estômago a cada vez que pensava em abandonar seu quarto. Definhou sozinho, incapaz de sair de casa para comprar comida, ou pagar suas contas, teve sua luz e água cortada mas permaneceu incapaz de sair de casa.
No início ainda pensava em comer o que tivesse em sua moradia, nem que fossem nacos de couro ou insetos que o visitavam; água bebia da chuva. Mas em um dado momento as gargalhadas o alcançaram nestes atos espúrios, no que ele parou novamente. Só restava esperar pela morte que, felizmente, não chegou rindo.
Sozinha
Ela chorava porque estava magoada, com o mundo, com as pessoas, com sua percepção dos fatos. Era inegável que algo iria acontecer, que transformações existiriam e que o gosto amargo em sua boca não desapareceria por completo. Viver é esmagar pequenas coisas ao seu redor e concentrar-se nas maiores, ela pensou.
Aquele não era um dia diferente, pessoas caminhavam de maneira normal, os ônibus se enfileiravam para recolher aqueles que se serviam dele e a monotonia do céu cinzento se espalhava e engolfava a todos nós. Não havia espaço para desculpas, para sorrisos ou o que fosse; o ar pesado com cheiro e gosto de fuligem junto com o som dos carros eram as únicas coisas que prendiam a atenção.
Desta forma ela vagava, perdida, acreditava que o simples ato de se por em movimento, acelerar sua pulsação, ajudaria a se sentir mais viva, no entanto não estava funcionando. As pessoas a deprimiam com seus olhares taciturnos ou cheios de malícia; a paisagem não ajudava, horrenda e deprimente; sua cabeça menos ainda, habitada por demônios e insatisfações. O cenário era o pior possível e nada parecia melhorar.
As pessoas a encaravam pela rua e a consideravam fraca por externar tamanha tristeza. Dentro do esquema dominante tudo tinha que ser escondido, reprimido e confinado. Ao perceber que seus passos não a levavam a lugar algum, sentou-se na calçada ao pé de uma árvore, onde abraçou seus joelhos e chorou convulsivamente por longos minutos. Estava sozinha e ninguém pareceu notar.
sexta-feira, 7 de março de 2008
??
Tudo havia começado quando ele resolveu fazer uma pergunta simples, quase retórica, que ela como sempre interpretou ao pé da letra e desenvolveu todo um longo monólogo que começou com citações, passou por elucubrações desconexas e acabou com a questão da condição humana e uma frase de efeito.
Ela se afastava enquanto ele olhava abismado, será que algum dia ela vai conseguir responder um oi com apenas um oi, pensava ele.
Tudo nela o irritava, a cor do cabelo, a escolha das roupas, o perfume, a voz, por mais que prestasse atenção e procurasse com afinco, não conseguia achar nada que gostasse. Porém não podia deixar de querer vê-la, de falar, de olhar para ela. Era quase uma necessidade, por mais mal que fizesse, por mais insuportável que fosse, ele simplesmente precisava olhar para o rosto dela e ouvir a sua voz.
Muitos falavam que era amor, muitos falavam que era paixão, mas ele sabia que não era isso, algo mais o impulsionava, algo mais o incentivava a continuar com isso.
Hoje, porém ao repassar o encontro do dia durante o caminho para casa, percebeu o que realmente sentia por ela. Sorriu e pensou que realmente um dia a gente consegue mudar algo.
Chegou a casa, tomou um banho e foi dormir, não antes de olhar para janela e falar em alto e bom som:
- Amanhã eu irei matá-la!
Adormeceu ao som de Echo & The Bunnymen, com a consciência daqueles que encontram a cura de seus tormentos.
segunda-feira, 3 de março de 2008
Clichês...
Estava tremendo, o suor escorria de sua testa. Seu corpo estava quente, sua mão tremia. Finalmente a overdose de comprimidos fazia efeito. O mundo girava. Seus olhos estavam embaçados. Apagou.
Pegou-se voando, viu um hipopótamo voando a seu lado, espelhos escorriam pelos cantos, escrivaninhas atacavam violoncelos. Marilyn Monroe furada a bala sorria para ele. O mundo girava. Porra – pensou ele, até nas minhas alucinações não consigo ser original. Uns tomam ácidos e vem portas, outros fumam ervas e vêem Deus. Eu tomo Valium e o que vejo, Machado de Assis, Dali, Miró e Andy Warhol. Puta que o pariu, é por isso que me matei – terminava o pensamento. Continuou vagando por alucinações de outras pessoas. Talvez a vida pós a morte seguisse a vida.
A vida dele podia ser resumida em dois, no máximo três clichês de filme de sessão da tarde. Seus romances podiam ser cantados com toda a graça e sutileza das músicas de grupos de pagode. Seu emprego era de contínuo. Tinha um gato, vivia sozinho num apartamento desarrumado. Na geladeira só tinha cerveja.
Tudo isso foi apresentado pela ex-mulher, somado às observações in loco dos policiais, ao delegado responsável pelo caso. Este depois de ouvir tudo e muito pensar, concluiu que o que ocorreu foi um suicídio. Fechou o botão da camisa, cobrindo o crucifixo dourado, cospiu o palito do canto da boca, tirou o chapéu da cabeça e o segurou na frente do peito. Feito isso olhou paras as pessoas presentes na sala e propôs um minuto de silêncio, uma vez que ali não morrera somente mais um cidadão, mas sim uma referência.
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
Papel de parede
Assim era Jorge, uma pessoa como eu e você, na verdade mais como eu, pois eu o criei. Mas isso não vem ao caso, o caso é que ali estava Jorge, sentado na sala de sua namorada atual, quando teve uma epifania. O papel de parede definia a pessoa. Ficou observando o papel de parede da casa de sua namorada, analisou, analisou e decidiu que definitivamente a personalidade dela não combinava com a dele. Resolveu terminar o namoro.
O tempo foi passando, e mania por papel de parede tornou-se uma obsessão, e nenhum relacionamento passava do momento em que a moça o convidava para entrar e beber algo.
Assim foi seguindo sua vida solitária, ate que aos trinta anos conheceu Lurdes.
Lurdes era tudo que ele sonhava como mulher, só tinha um problema, nunca o convidara para entrar em casa. Assim Jorge morria de curiosidade para ver o papel de parede de Lurdes, e confirmar se tinha encontrado com sua alma gêmea. O tempo foi passando e quando tinham 6 meses de namoro, Lurdes o convidou para entrar. Finalmente ele veria o papel de parede. Porem quando entrou na casa, surpreendeu-se, as paredes não tinham papel. Jorge foi ao delírio. Pediu Lurdes em casamento na hora, ali estava uma pessoa que poderia ser moldada de acordo com suas vontades, ele poderia colocar o papel de parede que quisesse impor seu ritmo, enfim controlá-la.
E hoje após dez anos de casados, Jorge ainda se lembra do dia em que pediu Lurdes em casamento, fica pensando, pensando, mas não pode pensar muito tempo, porque a Lurdes logo o chama. Está na hora dele passar a roupa...
Estranho Amor
Era uma vez em um reino encantado e distante, uma bela princesa das fadas, cheia de charme e sempre vestida para matar. Era desejada por todas as criaturas do reino mágico, fossem outras fadas, ogros, lobisomens, ninfas, ou o que seja. E ela se sabia desejada e, portanto,caprichava a cada vez que precisava de um favor, de um encanto novo ou de um serviço que sabia que não iria realizar, também governava desta forma, seduzindo a todos com sua beleza.
Em um dia estranho, com o sol nascendo prateado e a noite virando dia, a nobre princesa resolveu passear, com seus delicados sapatos brancos e vestido singelo, com um decote que faria uma rameira das docas corar. Em sua caminhada, ela não percebeu que alguém a espreitava, cheio de desejo e excitação, um belo unicórnio mas com uma índole terrível e irascível.
Em sua mente, o quadrúpede só pensava em amar a bela donzela e só não tinha tomado alguma decisão por uma questão biológica, perguntava-se como iria amar a pequena fada, dada a diferença de dimensões entre os corpos o que impossibilitava de certa forma o ato carnal. Independente disso, a amava mais do que tudo e resolveu seqüestra-la enquanto imaginava um jeito.
Uma vez seqüestrada, a pequena fada esperneou de todas as maneiras, contra os modos abusados do animal e contra o mau cheiro do castelo para o qual ele a levou que cheirava como um estábulo. E o unicórnio passou dias, semanas, meses e anos tentando de todas as formas suplicar para que ela se casasse com ele, discorrendo sobre suas boas intenções, perfumando mais a casa e comprando presentes caros e inúteis. Só que a pequena fada se ressentia cada vez mais, motivo que se explica pelas janelas sempre fechadas do castelo e sua presença sempre ser escondida de criados ou outros habitantes. O unicórnio procurava evitar a todo custo que outros soubessem de seu pequeno roubo.
Mas nenhuma fortaleza ou quarto é inexpugnável e quando o unicórnio partia, pequenos ratos se enfileiravam para admirar a bela fada e logo começou a se espalhar seu paradeiro. Estes boatos chegaram até o grande rei dos gnomos, que ao contrário da doce fada, era feio de doer, acostumado a submeter todos pela feiúra e pestilência que exalava e ele queria um pouco de beleza ao seu lado.
Armado e preparado para percorrer as sombras, o Gnomo conseguiu invadir o castelo do unicórnio, resgatar a fada e sair sem um arranhão que fosse, levando-a para sua morada subterrânea. Chegando lá, ele a pediu em casamento, encantado com sua beleza e feliz por um pequeno raio de sol estar ao seu lado. A princesa que odiava a feiúra e a escuridão, uma vez mais sentiu-se contrariada, se recusando a comer ou a casar com o rei estranho.
Sentindo-se ofendido, o rei Gnomo tratou de devolve-la ao unicórnio, que infeliz com toda esta situação, resolveu que provaria o sangue da fada. Chegou sorrateiro e a apunhalou, com alegria por ter do um fim prático ao rancor que guardava em seu coração. Mas o unicórnio ainda se sentia sozinho, desesperado pela solidão e pela sordidez de seus atos, buscou os conselhos do rei gnomo que também estava triste.
Em momentos de dificuldade, pessoas estranhas se juntam e descobrem novos sentimentos que até então permaneciam escondidos pela ignorância ou medo da reação de outras pessoas. Os dois descobriram que se amavam, casaram-se duas luas depois e são felizes até hoje.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
Piedade!
domingo, 24 de fevereiro de 2008
Pendurado
Estava muito cansado, mais do que nunca havia estado e, por conta disso, pretendia uma inovação, uma transformação que fosse. Passava seus dias e suas noites aguardando uma chance do destino e ao mesmo tempo tinha medo.
O medíocre e o patético se atemoriza diante de novas perspectivas, anseia por elas mas ao mesmo tempo as sabota, consciente e inconsciente sabe que não as quer. Vive sua vida cretina, sente dor mas é covarde. Incapaz, se refugia em fantasias acreditando que um dia possam ser atingidas mesmo sabendo que não são.
Entretanto, ele estava determinado a mudar algo, apostar na fortuna independente de ter qualquer estratégia. Pensava ele, já que a vida física não me satisfaz, tentarei a metafísica.
Preparou a corda com carinho e amor, assobiando e cantando, como uma criança impressionada com sua própria sagacidade. Não se dignou a deixar carta ou o que fosse aos seus próximos, afinal, não os tinha. Subiu em uma cadeira, amarrou sua corda na janela de seu apartamento e saltou com o pescoço na outra ponta.
Ficou suspenso graciosamente e expirou sem dificuldade, enquanto vizinhos e pedestres da rua gritavam.
sábado, 23 de fevereiro de 2008
Sem sentido?
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
Dois elefantes incomodam...?
Era inacreditável! A cidade que nunca parava, agora ficava atônita para o acontecimento. Em meio à pista expressa um casal de elefantes andava a passos vagarosos segurando logo atrás os carros, lembrando uma artéria entupida por dois grandes nódulos de gordura. Do alto em um helicóptero, um repórter segurava o microfone e olhava para baixo cuspindo palavras em um frenesi - é uma loucura! Temos que tirar os elefantes de lá. O corpo de bombeiros foi acionado, duas viaturas vermelhas e uma amarela param logo a frente dos paquidermes. Da amarela sai um homem alto de jaqueta bege que se ergue na frente dos animais e com as pernas espaçadas e as mãos na cintura, como um astro de bang bang. Ele olha fixamente para os animais. No peito duas inscrições: Rosalvo; zoonoses. Um outro homem sai pela porta lateral da viatura amarela e entrega ao nosso Clint Eastwood uma enorme espingarda. Rosavaldo abre o cano e coloca delicadamente dois projéteis em forma de seringa. Vira para o lado e sorri com ironia - estes derrubam até elefante - disse. Ele mira, mas os animais continuam impassíveis e continuam a caminhar devagar. Um rapaz magro com óculos extremamente grossos comenta com o colega - Cara parece aquele filme, o Império Contra-ataca, manja? Osvaldo levanta o rifle à altura dos olhos e mira no elefante da direita. Do alto o operador de câmera do helicóptero dá o zoom, em baixo as pessoas saem e se posicionam para ver melhor o espetáculo. Milhares de pessoas acompanham pela televisão a locução emocionada do apresentador do programa diário. Nas escolas as crianças descem ao pátio, os médicos param suas consultas e acompanham pelas telas espalhadas pela cidade, o taxista aumenta o volume do rádio. A cidade se conecta, tudo no tempo e no espaço se converge ali, naquele momento. Nada mais importa, a cidade parou. A respiração de todos entra em harmonia com a de Rosalvo. Ele atira. O projétil penetra na carne gorda do animal, ele levanta a tromba ao alto e empina. Seus olhos se transformam e assumem uma cor avermelhada e fixa, ele pisca e os olhos lacrimejam, as pálpebras se fecham e ele tomba. Sem demora, Rosalvo mira no segundo elefante e dispara, o sucesso é o mesmo, a multidão aplaude o nosso herói. Rosalvo sorri, ele ficou famoso. Nunca com seu mísero salário de 900 reais ele conseguira comprar um horário na TV só para ele. Agora ele tem a fama, momentânea que fosse, só para ele e para os dois elefantes. Mais tarde uma carreta aparece e retira os animais que são levados ao zoológico onde estão até agora. Para o resto de nós sobra apenas a felicidade de vivermos nossa vida repetida e medíocre seguindo uma cidade que não para, pelo menos até dois elefantes aparecerem em nossa vida.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
Questão
a) Passar uma temporada em Miami
b) Fazer compras em NY
c) Viajar com o Lula
d) Fazer campanha da coca-cola
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
Conversa entre amigos
- E por que não haveria de fazer?
- Porque está mais que claro que não passa de uma coisa mexinflória.
- Até acredito que seja próximo disso, mas não tiraria todo o mérito do fato.
- Será que você não percebe o indubitável? Ou será que terei de lhe explicar de forma paulatina?
- Sim, seria bom, até para que não sobrasse nenhuma arrepsia sobre o caso.
- Deixe então lhe dilucidar a questão.
- Encete!
- Observe a questão com atenção e perceba a estultificação do sujeito. Ele começou de forma até que simplória, mas eficaz, depois durante os meandros de sua explanação ele malogrou. O ponto fulcral foi quando ele colocou o creme de leite.
- Eu gosto de creme de leite.
- Sim, disso eu sei, mas não combina.
-Eu acho que você está sendo irascível demais.
- Não combina e ponto. Não me venha com essa de que gosto é gosto e não se discute, porque já te falei sobre a estética.
- Me lembra uma coisa?
- Lembro sim. O que seria?
- De nunca mais te convidar para assistir programas de culinária. A menos enquanto você estiver fazendo letras.
- Não é letras, é Letras Clássicas e Vernáculos!
O outro deu com os ombros e foi andando em direção a televisão, no curto caminho, pensou quão doce seria ter a televisão na cozinha, uma vez que estaria mais perto das facas.
Guia de leitura e explicações:
Imagine a cena, com o primeiro indivíduo com ar superior e fazendo cara de nojo e expressões corporais. Já o segundo interprete-o de forma irônica e com um quê de desprezo quando fala as palavras mais rebuscadas, acrescente um olhar do tipo implorando para o outro ficar quieto.
Caso queira, imite os dois na frente do espelho, quando conseguir fazer isso estará perto da cena real.
Nomes omitidos e situação levemente modificada para preservar as imagens dos atores.
Nenhum animal racional, ou não, foi molestado, queimado, torturado,seviciado ou qualquer coisa bizarra que passe pela sua mente, durante o diálogo.
Baseado em fatos reais.
O autor.
domingo, 17 de fevereiro de 2008
Balada
Adriano havia sido arrastado por seus amigos a uma balada, lá, segundo eles, ele poderia desfrutar de alguns prazeres da juventude, como beber, encontrar mulheres, ou quem sabe: até mesmo beijar.
Ao chegar ao local, percebeu as músicas que tocavam, as pessoas que lá freqüentavam e não se sentiu parte daquilo, as pessoas pareciam vazias, meros bonecos de carne que se sacudiam de um lado para o outro. As mulheres não o olhavam, parecia que ele não existia, ou se existia, era algo bem estranho e digno de ser ignorado.
Descontente com a situação em que se encontrava, Adriano procurou uma cadeira onde se sentar, de frente as pessoas que passavam por ele, contemplando o grande nada que estava a sua volta. Sentado com os braços para baixo, imaginou seus punhos se abrindo e vertendo sangue, que jorrava de um vermelho escuro, quase negro. O liquido aumentava a cada momento, circulando ao redor da cadeira onde estava sentado, já não existia som algum, apenas o piscar de luzes e imagens que se moviam ao seu redor.
Tudo que conseguia imaginar era o fim das pessoas a sua volta, da maneira que fosse, desde que deixassem de respirar e sangrassem junto.
